O início do Fim da História: Billy Elliot e a morte da classe operária

A sequência final de Billy Elliot (Dir: Stephen Daldry,1998, UK) é vista por muita gente como a conclusão de uma história de vitória e superação. O pequeno Billy, oriundo da uma família operária inglesa, rompe todas as barreiras de classe e preconceito, e se transforma, aparentemente, num bailarino de sucesso. A cena que mostra os bailarinos na coxia correndo para olhar a entrada triunfal de Billy no palco mostra, através de seus olhares de admiração, a grandeza do personagem. No entanto, para mim ela sempre sinalizou a ambivalência inconciliável de um drama muito mais complexo e muito menos feliz.

Nessa sequência, o pai de Billy e Tony, o irmão mais velho, vão a Londres ver uma exibição de Billy, já adulto e, ao que parece, o protagonista da peça. Essa é uma sequência ambivalente porque, de um lado, eles representam a decadência da classe operária inglesa e do trabalhismo de esquerda, esmagados pela Margareth Thatcher na greve de 1984, evento no qual o filme é ambientado.

Essa greve marcou a destruição do último front de resistência sindical, e abriu o caminho para a vitória final do neoliberalismo na Inglaterra, o mesmo modelo que seria exportado para o resto do mundo. A destruição da esquerda operária foi vista como a confirmação do lema thatcheriano neoliberal TINA (“There Is No Alternative!”). É o início do Fim da História.

Esse momento marca um golpe muito forte na ideia de que a saída para os problemas sociais era a luta coletiva. A sequência em que Tony foge da polícia entrando e saindo da casa das pessoas do bairro operário, e contando com a ajuda delas, mostra um pouco dessas formas de luta, confronto e solidariedade da classe trabalhadora. E é muito significativo nessa sequência que Billy assista toda a cena de cima do muro, de um ponto de vista privilegiado e seguro, enquanto seu irmão apanha da polícia, tendo “London Calling”, do The Clash, como trilha.

A cena do pai de Billy e Tony sentados no teatro, envelhecidos e deslocados, num ambiente que pertence a uma outra classe, evoca uma certa nostalgia e também a derrota. Os dois representam o passado, são fósseis da classe operária que não existe mais, personificam formas de luta que, naquele momento, pareciam extintas. E embora carreguem o peso da derrota, ao mesmo tempo eles parecem felizes porque Billy encontrou seu caminho.

Por outro lado, Billy, tal como eu entendo esse filme, é o reverso dessa moeda. Ou seja, ele sinaliza a vitória do individualismo do neoliberalismo. Ele escapou do infortúnio da sua classe através dos mecanismos da meritocracia e do talento pessoal. Ele era um sujeito com um talento excepcional e com isso encontrou uma via de saída da reprodução da vida operária. Diferente do seu irmão, ele não repetiria a vida de seu pai.

Todo o conflito do filme, na verdade, é uma dramatização de um processo de ruptura do destino de classe. A resistência do pai em aceitar um filho bailarino, bastante misturada com o preconceito machista contra uma arte associada ao feminino, é uma tentativa de evitar que ele abandone sua classe e também os valores associados a ela.

A cena mais dramática do filme, por exemplo, é exatamente aquela que marca o momento em que o pai, talvez vislumbrando a derrota histórica da classe operária, resolve furar a greve para conseguir dinheiro para que Billy possa participar da seleção do Royal Ballet School. Tony, uma espécie de anti-herói que desde o início do filme antagoniza com Billy, impede a traição do pai. Enquanto os dois se abraçam na porta da mina, o pai se justifica dizendo que é preciso dar uma chance a Billy de escapar daquela vida. Mas, ao fim e ao cabo, é a solidariedade da classe operária que o salva. É a comunidade dos trabalhadores que se mobiliza em plena greve para conseguir o dinheiro que a família de Billy precisa.

A ambivalência da sequência final de Billy Elliot tem a ver com essa disjunção dos destinos. De um lado há a derrota do sonho coletivo da classe operária e, ao mesmo tempo, a vitória do indivíduo e do talento pessoal de Billy, que de outra forma estaria condenado a mesma derrota que seu pai e seu irmão representam.

Por fim, não acho que a sequência final baseada na presença de Billy em O Lago do Cisne, seja casual. Essa é uma história de dor, maldição, traição e amor no qual o final feliz de Odette é a reconciliação na morte com Siegfried, depois de sua traição. E isso, para mim, sinaliza qual é o horizonte de leitura do filme. Não é, como muita gente interpreta, a história do progresso e ascensão de um sujeito excepcional, mas sim uma bela história trágica cuja a aparente vitória do indivíduo é também uma narrativa sobre a derrota, da morte de uma classe e do fim da busca de uma alternativa coletiva para os problemas da sociedade.

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